Quem pode ser bispo?

No próximo domingo, dia 29, Dom João Gilberto de Moura inicia seu serviço pastoral em Jardim, no Mato Grosso do Sul. Mineiro de Ituiutaba, 49 anos, ele é o quarto bispo de uma Diocese criada há 32 anos e que, até hoje, contou com a atuação de três prelados: Dom Onofre Cândido Rosa, SDB (1981/1999), Dom Bruno Pedron, SDB (1999/2008) e Dom Jorge Alves Bezerra, SSS (2008/2012). Ele é o primeiro sacerdote do clero diocesano a assumir os destinos da Igreja Católica em Jardim.

A ocasião se presta para uma reflexão sobre o significado e a missão que cabem a um bispo. Na Igreja Católica, ele é considerado sucessor dos Apóstolos, com a tarefa de se colocar a serviço de uma determinada porção do povo de Deus e, em unidade com o Papa, fazer suas «as preocupações por todas as Igrejas», como dizia de si mesmo São Paulo (2Cor 11,28).

Para entender e aprofundar o assunto, é de ajuda o pronunciamento feito no dia 21 de junho pelo Papa Francisco aos Núncios Apostólicos. Como se sabe, além de representar o Vaticano junto aos países que o reconhecem como Estado, eles têm um papel preponderante na seleção dos candidatos ao episcopado. O Santo Padre começou seu discurso citando um antigo provérbio, sempre visto como critério para a escolha de quem deve dirigir uma Diocese: «Seja santo para rezar, sábio para ensinar e prudente para governar».

Em seguida, como primeira condição para os padres “bispáveis”, Francisco coloca o desprendimento e a proximidade com o povo: «Talvez o candidato seja um grande teólogo, uma celebridade cultural: que vá, então, para uma universidade, onde fará muito bem! O que precisamos é de pastores que sejam pais e irmãos: mansos, pacientes e misericordiosos! Que vivam a pobreza interior como liberdade para melhor servir a Deus, e a pobreza exterior na simplicidade e na austeridade de vida! Que não tenham a mentalidade de príncipes!».

Outra virtude indispensável do candidato é a humildade: «Não escolham pessoas ambiciosas, que anseiam pelo episcopado. Conta-se que o bem-aventurado João Paulo II, em sua primeira audiência com o cardeal-prefeito da Congregação para os Bispos, quando lhe foi perguntado sobre os critérios para a eleição dos candidatos, ele teria respondido com sua voz característica: “O primeiro critério é este: os que querem, nós não os queremos!”».

Foi a resposta que ele mesmo deu, poucos dias antes, a uma menina que, muito candidamente, lhe perguntara se queria ser Papa: «Tu sabes o que é não querer bem a si mesmo? Uma pessoa que quer ser Papa não se ama nem é abençoada por Deus. Não, eu nunca quis ser Papa!».

Prosseguindo em sua alocução, Francisco lembrou aos Núncios que, «também para os homens da Igreja», existe o perigo de ceder ao «espírito do mundo», a procurar não a glória de Deus, mas a realização pessoal, caindo numa «burguesia espiritual», que leva a «afrouxar, a buscar uma vida cômoda e tranquila. Quando nós, pastores, cedemos a esse espírito, nos expomos ao ridículo. Sim, poderemos, talvez, receber alguns aplausos, mas as mesmas pessoas que parecem nos aprovar, depois nos criticam pelas costas. Digam aos bispos que devem ser esposos de uma só Igreja, sem sonhar com outras Dioceses mais importantes ou mais ricas!».

Três meses depois, no dia 19 de setembro, falando para 120 bispos recém-nomeados, o Papa almejou que não fossem “bispos de aeroporto”: «Desçam entre seus fiéis, em todas as periferias existenciais de sofrimento, solidão e degradação humana. A presença pastoral requer que se caminhe com o povo: à sua frente, para lhe indicar o caminho; em seu meio, para fortalecê-lo na unidade; e na retaguarda, para que ninguém fique para trás».

A palavra final foi reservada ao relacionamento com os presbíteros: «Quero lembrar-lhes a amizade com os sacerdotes. Eles são as pessoas mais próximas, os primeiros onde buscar conselho e ajuda e os primeiros a quem acompanhar como pais, irmãos e amigos. Uma das tarefas primordiais de vocês devem ser o cuidado espiritual do presbitério e a atenção às necessidades humanas de cada sacerdote, sobretudo nos momentos mais delicados e importantes de seus ministérios e de suas vidas».

Dom Redovino Rizzardo, cs

Bispo de Dourados

redovinorizzardo@gmail.com


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