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“É meu desejo que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não somente a ações isoladas – sem dúvida, necessárias”, mas “gere em todos a consciência de que “a partilha dos dons que o Senhor generosamente nos concede não pode restringir-se a um período do ano, a uma campanha ou a algumas ações pontuais, mas deve ser uma atitude constante, que nos compromete a ir ao encontro de Cristo presente naqueles que não têm onde morar”, escreveu o papa Leão XIV em sua primeira mensagem à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) por ocasião do lançamento da Campanha da Fraternidade 2026, hoje (18), nesta Quarta-feira de Cinzas no auditório dom Helder Câmara, em Brasília (DF).
A mensagem do papa Leão XIV foi escrita no dia 11 de fevereiro, dia da memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes. Desde 1970, a pedido do presidente da CNBB, o papa envia uma mensagem de apoio à iniciativa da Conferência.
A Campanha da Fraternidade “não existe em outros países. É um ‘jeitão’ brasileiro de viver a Quaresma, unindo fé e vida”, como disse o arcebispo de Campo Grande (MS), dom Dimas Lara Barbosa, durante a coletiva de apresentação da Campanha da Fraternidade 2025, sobre a ecologia integral.
Ela foi criada em 1962, pelo primeiro bispo auxiliar e administrador apostólico de Natal (RN), dom Eugênio de Araújo Sales, “como expressão da caridade e da solidariedade em favor da dignidade da pessoa humana, dos filhos e filhas de Deus”, segundo a CNBB.
Em 1964, a Campanha da Fraternidade tornou-se uma iniciativa nacional da CNBB, acontecendo anualmente, durante o Tempo da Quaresma, “como caminho de conversão, solidariedade e compromisso social”, segundo o secretário executivo de Campanhas da CNBB, padre Jean Poul Hansen.
Fraternidade e Moradia
A Campanha da Fraternidade 2026 tem como tema “Fraternidade e Moradia”, sugestão feita “pela Pastoral da Moradia e Favelas e acolhido pelos bispos em fevereiro de 2024, por ser uma questão urgente em nosso meio, que clama pela nossa conversão”, disse o secretário executivo de Campanhas da CNBB, padre Jean Poul Hansen à ACI Digital.
Segundo o padre Jean Poul, o objetivo geral desta Campanha é “promover, a partir da Boa Nova do Reino de Deus e em espírito de conversão quaresmal, a moradia digna como prioridade e direito, junto aos demais bens e serviços essenciais a toda a população”.
O papa leão XIV disse em sua mensagem que “a Campanha da Fraternidade, momento em que”, a Igreja no Brasil “como comunidade de fé, dirige a sua ação pastoral e caritativa aos pobres, os verdadeiros destinatários do nosso amor preferencial’’, como ele fez “questão de recordar” em sua exortação apostólica Dilexi te (Eu te amei), sobre o amor aos pobres, e como seu “santo predecessor, são João Paulo II, convidava a voltar a atenção “para os milhões de seres humanos privados de uma habitação conveniente, ou até mesmo sem qualquer habitação, a fim de despertar a consciência de todos e encontrar uma solução para este grave problema, que tem consequências negativas no plano individual, familiar e social”, em sua encíclica Sollicitudo rei socialis (A solicitude social) pelo 20º aniversário da encíclica Populorum progressio (Progresso dos Povos), escrita pelo papa são Paulo VI.
“Desejo igualmente, queridos irmãos e irmãs, que as iniciativas nascidas a partir da Campanha da Fraternidade possam inspirar as autoridades governamentais a promover políticas públicas, a fim de que, trabalhando todos em conjunto, seja possível oferecer à população mais carente melhorias significativas nas condições de habitação”, disse Leão XIV. “Confio estes votos aos cuidados de Nossa Senhora, que não encontrou morada em Belém para dar à luz ao Redentor, mas que tem sua casa, como rainha e padroeira do Brasil, no Santuário Nacional de Aparecida. E, como penhor de abundantes graças, concedo de bom grado aos filhos e filhas da querida nação brasileira, de modo especial àqueles que se empenham para que todos tenham moradia digna, a Bênção Apostólica”.
A Quaresma é ‘um especial chamado de Deus a uma autêntica conversão’
Ainda em sua mensagem, Leão XIV citou o sermão nº 210, de santo Agostinho em sua mensagem à CNBB, no qual diz que: “Chegamos à época solene que nos lembra o dever de nos aplicarmos à prece e ao jejum mais do que em qualquer outro tempo do ano, iluminando nossas almas e disciplinando nossos corpos”.
Segundo Leão XIV, “o tempo litúrgico” da Quaresma que inicia hoje, é “um especial chamado de Deus a uma autêntica conversão, redirecionando toda a nossa vida para Ele, ao seguirmos, por meio do jejum e a penitência, os passos de Nosso Senhor que se retirou no deserto por quarenta dias”.
“Neste tempo de intensa oração, somos igualmente convidados a praticar com renovado empenho a virtude da caridade com os mais pobres e necessitados, com os quais o próprio Cristo se identifica”, disse o papa pedindo que “o Espírito Santo, autor da nossa santificação, nos conduza ao longo deste caminho”.
Abertura da Campanha da Fraternidade
O bispo auxiliar de Brasília, dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da CNBB, disse hoje na abertura da Campanha da Fraternidade 2026 que o lema da ação da Conferência ‘Ele veio morar entre nós’, “nos remete ao centro da fé cristã” porque “Deus não permaneceu distante, Ele entrou na história, Ele fez da humanidade à sua casa”.
“E é precisamente por isso que a questão da moradia se impõe como uma urgência ética, social e espiritual”, disse o bispo. “O Brasil, como diz o papa Leão, enfrenta uma grave crise habitacional. E o texto base nos apresenta os números oficiais do déficit habitacional que impactam a vida de milhões de famílias. Não são números abstratos. São rostos, histórias, vidas marcadas pela insegurança, pela precariedade e pela exclusão”.
Segundo dom Ricardo Hoepers a “nossa conversão”, “começa com a consciência que isso não é natural”.
“Não podemos naturalizar que alguém viva sem teto e aceitar que crianças cresçam em áreas de risco. Não podemos considerar inevitável que a desigualdade determine quem tem direito a morar com dignidade. A moradia não é privilégio. É condição básica para o exercício de outros direitos. É fundamento da dignidade humana”, disse o secretário-geral da CNBB destacando que “a tradição cristã nunca separou fé e responsabilidade histórica”.
‘Uma espiritualidade que ignora o sofrimento do povo, não é fidelidade ao Evangelho’
Dom Ricardo Hoepers ainda disse que “a conversão que Deus pede é integral” e “não pode ser só intimista no interior dentro de nós, mas também relacional, estrutural, social”.
“Por isso, uma espiritualidade que ignora o sofrimento do povo, não é fidelidade ao Evangelho”, disse Hoepers ressaltando que “a campanha da fraternidade, portanto, ela não desvia o sentido quaresmal, mas ela explicita suas exigências”.
O bispo também enfatizou “que a doutrina social da Igreja, especialmente nos temas que se referem à dignidade humana, recorda que a destinação universal dos bens e a função social da propriedade tem um sentido” e “isso significa que a economia deve servir à vida”.
“Isso significa que o mercado não pode se sobrepor à dignidade humana e as políticas públicas habitacionais não são concessões, mas deveres do Estado. Diante deste alerta da campanha da Fraternidade 2026, queremos lembrar que esta crise habitacional deve mobilizar a sociedade como um todo”.
‘Este não é um tema partidário, ele é um tema humano’
Ao final do seu discurso, dom Ricardo disse que a moradia “não é um tema partidário, ele é um tema humano. É um tema civilizatório”.
“O modo como tratamos os mais vulneráveis revela o tipo de país que desejamos ser. A campanha da Fraternidade 2026 quer suscitar diálogo, mobilização e compromisso. Quer fortalecer iniciativas já existentes, inspirar políticas públicas eficazes, incentivar parcerias responsáveis e despertar consciência. E quero acima de tudo reafirmar que ninguém deve ficar sem casa em um país com tantas possibilidades”, disse o bispo.
“Que a Páscoa nos encontre mais justos, mais fraternos e mais responsáveis e que Nossa Senhora Aparecida interceda pelo país e peçamos a graça, querido irmão, querida irmã, da conversão para ajudarmos a construir uma sociedade mais justa e fraterna com terra, teto e trabalho para todas as pessoas, a fim de um dia habitarmos na casa do céu”, finalizou.





