Acidigital
O papa Leão XIV pediu para “sentir e agir com as mesmas entranhas de compaixão de Deus” e disse que isso inclui também os que não têm a “mesma nacionalidade ou religião”.
“Às vezes, contentamo-nos em fazer apenas o nosso dever ou consideramos nosso próximo somente quem está no nosso círculo, quem pensa como nós, quem tem a mesma nacionalidade ou religião”, lamentou o papa durante a homilia de hoje na paróquia pontifícia santo Tomás de Vilanova, no centro histórico de Castel Gandolfo, onde ele está passando férias.
A celebração contou com a presença do bispo de Albano, dom Vincenzo Viva, e do prefeito do Castel Gandolfo, Alberto De Angelis, mas também de muitos fiéis que lotaram a pequena igreja paroquial. Entre os concelebrantes estava o prefeito do dicastério para o Serviço de Desenvolvimento Humano Integral, cardeal Michael Czerny.
Antes da missa, Leão XIV percorreu as ruas de Castel Gandolfo em um dos dois papamóveis elétricos e ecológicos que recebeu no domingo passado e que usará também nas próximas viagens apostólicas, já que foram projetados para caber em um avião. O papa saudou centenas de fiéis que se reuniram nas proximidades da igreja desde o início da manhã.

Em sua homilia, o papa refletiu sobre a parábola do bom samaritano, na qual Jesus “inverte a perspectiva”, pois nos apresenta “um estrangeiro e herege que se torna próximo daquele homem ferido” e “pede-nos que façamos o mesmo”.
“O primeiro olhar do qual a parábola quer falar-nos é aquele que Deus dirigiu para nós, a fim de que também nós aprendamos a ter os mesmos olhos que Ele, cheios de amor e compaixão uns pelos outros”, disse.
Este “olhar mais profundo, com uma empatia que nos põe no lugar do outro”, contrasta com o olhar “exterior, distraído e apressado” que não se deixa “sensibilizar e interpelar pela situação”.
O risco de uma “fé acomodada”
Neste sentido, o papa advertiu contra o risco de “uma fé acomodada” apenas “conformada com a observância exterior da lei” e deixou claro que Cristo é “a manifestação de um Deus compassivo”.
Com isso, ele indicou que, hoje, “aquele caminho que desce de Jerusalém até Jericó, uma cidade que se encontra abaixo do nível do mar, é o caminho percorrido por todos aqueles que se aprofundam no mal, no sofrimento e na pobreza”; o caminho de “tantas pessoas oprimidas pelas dificuldades ou feridas pelas circunstâncias da vida”; o caminho “de todos aqueles que “estão embaixo” até se perderem e tocarem o fundo”.
Povos “roubados e saqueados, vítimas de sistemas políticos opressivos”
Nesta lista, o papa citou também tantos “povos espoliados, roubados e saqueados, vítimas de sistemas políticos opressivos, de uma economia que os condena à pobreza, da guerra que mata os seus sonhos e as suas vidas”.
Então, convidou os fiéis a questionarem-se: “E o que fazemos nós? Vemos e passamos adiante, ou deixamos que o nosso coração seja traspassado como o do samaritano?”
Ainda na homilia, pediu a todos para voltarem ao “próprio coração” para “descobrir que é precisamente ali que Deus escreveu a lei do amor”.

E acrescentou: “Acreditar n’Ele e segui-lo como seus discípulos significa deixar-se transformar para que também nós possamos ter os mesmos sentimentos d’Ele, ou seja, um coração que se comove, um olhar que vê e não passa adiante, duas mãos que socorrem e aliviam feridas, ombros fortes que carregam o fardo daqueles que estão em necessidade”.
A revolução do amor
O papa disse que “obedecer aos mandamentos do Senhor e converter-se a Ele, não significa multiplicar atos exteriores, mas, pelo contrário, trata-se de voltar ao próprio coração, para descobrir que é precisamente ali que Deus escreveu a lei do amor”.
E acrescentou: “Curados e amados por Cristo, também nós nos tornamos sinais do seu amor e da sua compaixão no mundo. Irmãos e irmãs, hoje precisamos desta revolução do amor”.
Leão XIV disse que Francisco lembrou-nos “tantas vezes que Deus é misericórdia e compaixão” e que Bento XVI deixou claro que o bom samaritano “não se pergunta até onde chegam os seus deveres de solidariedade nem sequer quais sejam os merecimentos necessários para a vida eterna”.
Por último, pediu que olhássemos para os outros “sem passar adiante”, parando “a nossa corrida apressada”. “Isso aproxima-nos uns dos outros, gera uma verdadeira fraternidade, derruba muros e barreiras. E, finalmente, o amor abre caminho, tornando-se mais forte do que o mal e a morte”, concluiu.
A paróquia está localizada na pitoresca Piazza della Libertà, de Castel Gandolfo, que fica a cerca de 29 quilômetros do Vaticano.
A igreja foi construída entre 1658 e 1661, a pedido do papa Alexandre VII, que confiou o projeto ao famoso arquiteto Gian Lorenzo Bernini. É uma igreja pequena, com capacidade para mais de 300 pessoas. Muitos dos fiéis acompanham a celebração do lado de fora. Desde 1929, a paróquia está confiada aos Salesianos, que mantêm uma intensa atividade pastoral.
O Papa entregou um cálice a paróquia de Castel Gandolfo
No final da celebração, o papa entregou a paróquia um cálice dourado, que ele chamou de “instrumento de comunhão”. Com este gesto simbólico, renovou o seu convite para viver em comunhão e promover uma fraternidade que se traduza em gestos concretos na vida quotidiana. “O cálice que entrego a esta igreja quer ser um sinal de unidade: recorda-nos que, na Eucaristia, se forja a comunhão que somos chamados a viver e a testemunhar”, afirmou Leão XIV.