Acidigital
Matar os doentes não é nem compassivo nem normal, e o fato de ser legal não o torna moral, disse o papa Leão XIV hoje (27), em uma clara referência à recente legalização da eutanásia e do suicídio assistido na França.
“Sei que, para alguns de vós, devido a determinadas doenças e a dores por vezes terríveis, o horizonte pode parecer sombrio, incerto, sem saída. Mas nenhuma lei humana deve levar-vos a perder a certeza da vossa dignidade”, disse o papa em um encontro com cerca de 5 mil pessoas doentes e cuidadores no Santuário de Nossa Senhora de Lourdes.
“É precisamente em nome desta dignidade inalienável da pessoa humana que a tentação de tirar a vida sob o pretexto de uma falsa compaixão deve ser firmemente rejeitada”, acrescentou o papa, sob aplausos. “Não é possível aceitar como algo normal tirar a vida. O que é legal não é necessariamente moral”.
As observações do papa sobre as questões relacionadas ao fim da vida foram recebidas com aplausos e gritos de “bravo”.
A França legalizou o suicídio assistido e a eutanásia neste verão, tornando-se o quinto país europeu a fazê-lo, depois da Bélgica, dos Países Baixos, de Luxemburgo e da Espanha. Além disso, a Suíça e a Áustria permitem o suicídio assistido.
A eutanásia é o fim intencional da vida de uma pessoa para aliviar o sofrimento. Ela difere do suicídio assistido, no qual o próprio paciente toma medicamentos letais, sob orientação médica. Ambas as práticas são proibidas pela doutrina católica.
Leão XIV se reuniu hoje com a equipe e os hóspedes doentes do Accueil Notre-Dame (Lar de Notre-Dame), um alojamento residencial classificado como unidade de saúde, que acolhe peregrinos doentes, com deficiência e frágeis que visitam Lourdes.
O santuário católico é um dos mais visitados do mundo, atraindo mais de 3 milhões de pessoas todos os anos, muitas delas em busca de curas físicas milagrosas.
A propriedade de 136 acres inclui a Gruta de Massabielle, onde a jovem santa Bernadete Soubirous teve 18 aparições da Virgem Maria a partir de 11 de fevereiro de 1858. Hoje, os peregrinos que visitam o santuário se banham na fonte de água doce que Maria revelou a Bernadete.
Os visitantes relataram 7 mil curas desde as aparições; depois de longas investigações, a Igreja declarou que 72 dessas recuperações foram milagrosas, ou seja, inexplicáveis pela ciência.
“Aqui em Lourdes, cidade dos doentes e da esperança, convido toda a comunidade dos profissionais de saúde a recordar o significado profundo da sua vocação: cuidar de uma pessoa que sofre, não eliminá-la”, disse o papa.
Ele encorajou os profissionais da saúde a serem “servidores apaixonados da vida” e citou seu discurso à Fundação Jérôme Lejeune em junho, no qual disse: “Ninguém, em momento algum, tem o direito, ‘baseando-se em algoritmos de laboratório, de decidir sobre a vida de um determinado embrião ou de uma determinada pessoa idosa! A medicina nunca poderá tornar-se serva da morte programada!’”.
No início da manhã, o papa se dirigiu à Conferência Episcopal Francesa, elogiando a coragem dos bispos em se oporem à legalização da eutanásia e do suicídio assistido.
“Exorto-vos à perseverança, em conjunto com todas as pessoas de boa vontade que defendem os mesmos valores”, disse o papa aos bispos.
Em suas palavras aos doentes e aos cuidadores, Leão XIV pediu a criação de estruturas para cuidados paliativos e exortou a área da saúde a acompanhar os doentes com a mesma ternura que recebem em Lourdes.
“Médicos, enfermeiros, socorristas, capelães, equipes da pastoral da saúde e muitos outros continuam a exercer a sua vocação ao serviço da dignidade da pessoa humana, para que o mundo tenha vida”, disse.
“Queridos irmãos e irmãs doentes”, concluiu o papa, “gostaria de vos dizer: não sois um fardo, sois o coração pulsante da nossa humanidade e um tesouro precioso para a Igreja. Acompanho com a minha oração as provações que enfrentais”.
Logo depois do encontro, o papa caminhou até o local vizinho para saudar as freiras carmelitas descalças, cujo mosteiro fica de frente para a gruta das aparições, do outro lado do rio Gave de Pau. O mosteiro contemplativo foi fundado em 1876, apenas 18 anos após Maria ter aparecido a santa Bernadete.





