Acidigital
O papa Leão XIV pediu hoje (7) a representantes episcopais de todo o mundo, reunidos no Vaticano para um encontro sobre a família, que enfrentem com “coragem” o desafio de aprender e oferecer respostas a famílias “marcadas por dificuldades” e por “um aparente fracasso”.
“A sabedoria do Povo de Deus chega até nós através da nossa fé comum, que ilumina todas as famílias, incluindo as situações marcadas por dificuldades, solidão e, por vezes, até mesmo por um aparente fracasso”, disse o papa em seu discurso de abertura do encontro, que está sendo realizado na Aula Paulo VI e terminará em 14 de outubro.
Espera-se que essa assembleia — realizada a portas fechadas e sem jornalistas — produza um documento resumido, embora sem valor doutrinário, que será então entregue ao papa.
A reunião faz parte das assembleias sinodais de avaliação propostas para o fim do período de 2021-2024.
Dez anos depois dos dois sínodos sobre a família e a controvérsia suscitada pela exortação apostólica Amoris laetitia, 154 bispos e cardeais, 53 sacerdotes e leigos, e 11 famílias convidadas iniciaram hoje uma série de encontros com o objetivo de fazer um balanço da situação atual e avaliar a recepção da exortação apostólica que o papa Francisco dedicou às famílias.
O documento gerou intenso debate por abrir as portas, em alguns casos, para o acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia para alguns católicos divorciados e recasados civilmente, “quando a pessoa considera que incorreria em uma falta adicional prejudicando os filhos da nova união”.
A doutrina da Igreja diz que os fiéis divorciados que contraíram nova união civil não podem receber os sacramentos.
O papa não fez qualquer menção a isso em seu discurso, que proferiu em inglês depois de um momento de oração.
Leão XIV disse que a vida familiar coloca à Igreja “questões que devemos enfrentar com coragem” e listou algumas das situações que mais o preocupam.
“Em muitos contextos, surgiu um distanciamento crescente entre o modo como a sexualidade e a intimidade são vividas e a visão cristã do casamento”, disse ele.
“Os jovens continuam a desejar o amor, a fidelidade e o sentimento de pertencimento, mas muitos têm dificuldade em compreender como essa visão do amor pode concretizar-se em suas próprias vidas ou em acreditar que um compromisso para toda a vida é a condição para alcançar aquilo que desejam”, disse o papa.
“A insegurança econômica, a migração, a violência, a solidão e outras formas de fragilidade emocional também moldam as escolhas que as pessoas fazem e as possibilidades que conseguem imaginar para o seu futuro”, disse ele.
O que podemos aprender com a experiência vivida pelas famílias?
Focando nos desafios mais prementes, o papa encorajou os bispos a ouvirem as famílias e disse que a Igreja ainda tem muito a aprender com elas. Ele propôs uma série de questões que, em sua opinião, deveriam nortear os trabalhos desse encontro, que está sendo conduzido segundo a metodologia usada no Sínodo da Sinodalidade de discutir em grupos pequenos e não no plenário.
“O que as pessoas procuram verdadeiramente por trás dessas mudanças culturais? O que suas alegrias e esperanças, suas tristezas e angústias nos revelam? Em que aspectos nossa linguagem e nossas práticas pastorais conseguem abrir caminho e onde não conseguem tocar o coração das pessoas nem apoiar seus esforços para fazer o bem? O que nos ensina a experiência vivida pelas famílias — uma experiência da qual ainda não aprendemos plenamente? O que podemos oferecer em termos de formação para uma vida familiar saudável e santa? Em particular, o que podemos aprender com os pais, que procuram acompanhar seus filhos, e com os jovens nesses contextos?”
“A fragilidade merece atenção especial”
O papa disse também que a “fragilidade” merece uma atenção especial porque pode “marcar profundamente a maneira como uma pessoa olha para si mesma, para o futuro e até para sua relação com Deus e com a Igreja”.
“Todos conhecemos a distância entre o bem que desejamos e aquilo que somos capazes de viver. Precisamos de graça, perdão e novos começos para cumprir a vontade de Deus, e aprendemos que a fidelidade é, ela própria, uma graça a receber e um caminho a renovar gradualmente, muitas vezes através da provação”, disse ele.
Leão XIV pediu que o reconhecimento desse “desafio compartilhado” influencie a maneira como os membros da Igreja acompanham as famílias. Para isso, ele fez outras perguntas aos participantes:
“Que tipo de Igreja as pessoas encontram precisamente quando estão mais frágeis? Nossas comunidades ajudam-nas a descobrir que ainda têm um lugar, uma responsabilidade e dons para oferecer? A verdade que proclamamos pode ser encontrada através da paciência, da proximidade e da misericórdia da nossa presença pastoral? Como podemos anunciar-lhes a plenitude do ensinamento do Evangelho sobre a família?”
Por fim, ele convidou os presentes a darem a essas questões toda a importância que merecem.
“O Espírito Santo muitas vezes fala precisamente através de situações que nos testam, iluminando-nos para descobrirmos como a misericórdia de Deus e a graça salvadora de Cristo podem alcançar as nossas famílias hoje, especialmente nas suas fraquezas e resiliências, nas suas esperanças e desilusões, no seu desejo de comunhão e na sua busca de sentido”.
Na parte final de seu discurso, Leão XIV pediu que o trabalho seja realizado numa atmosfera de genuína “liberdade evangélica” e encorajou os participantes a “compartilhar sinceramente tanto as alegrias quanto os desafios vividos em suas Igrejas locais”.
Confidencialidade relativa à reunião
O papa falou também sobre a importância da oração nos encontros e expressou sua esperança de que a reunião contribua para a construção de um entendimento comum sobre a década passada do ministério familiar na Igreja. Por fim, pediu a todos os participantes que ajam com discrição e mantenham a confidencialidade sobre o que está sendo discutido.





