Acidigital
O papa Leão XIV dedicou a manhã de hoje (9) a agradecer aos milhares de voluntários que ajudaram a organizar sua viagem apostólica à Espanha, antes de ir para Barcelona para conhecer os vestígios ancestrais da fé cristã profundamente enraizada no país.
Na catedral da Santa Cruz e Santa Eulália, cuja construção começou no fim do século XIII no lugar de antigas igrejas cristãs e românicas e que se tornou, um século depois, uma das joias mais importantes da arquitetura gótica europeia, o papa rezou a oração do meio-dia com cerca de 500 fiéis.
Centenas de pessoas aguardavam do lado de fora da catedral para demonstrar seu carinho, muitas delas agitando bandeiras da Santa Sé.
O papa chegou acompanhado pelo arcebispo de Barcelona, cardeal Juan José Omella. O avião que transportava Leão XIV pousou na capital catalã com 40 minutos de atraso.
Na cerimônia, o papa sentou-se na cadeira mais antiga da cidade — a cátedra, ou assento do bispo — que ainda está em uso, datando pelo menos da consagração da catedral em 1058, segundo pesquisas recentes.
Em sua homilia, Leão XIV conclamou os fiéis a serem construtores da comunhão.
“Queridos irmãos e irmãs: num mundo dilacerado por guerras e divisões, é com este espírito que também nós, numa sociedade cada vez mais fragmentada e individualista, queremos ser ‘mártires’, ou seja, testemunhas e profetas de unidade, acolhimento, concórdia e paz, mesmo que isso implique sacrifícios e renúncias”, disse o papa.
Foi a primeira vez na viagem que Leão XIV pronunciou várias frases em catalão, a língua própria da Catalunha, co-oficial na Espanha com o espanhol e principal língua da administração regional.
Símbolo da identidade cultural catalã, o idioma usado pelo papa nos eventos programados em Barcelona tornou-se tema de debate público na Catalunha nos últimos dias.
A controvérsia intensificou-se depois de se ter revelado que a bênção da Torre de Jesus Cristo na Sagrada Família — um dos momentos centrais da visita — seria realizada principalmente em espanhol.
No Congresso dos Deputados da Espanha, onde o papa fez um discurso sem precedentes ontem (8), a deputada Miriam Nogueras, do partido Junts per Catalunya (Juntos pela Catalunha), pediu-lhe que falasse em catalão.
“Para cada um de nós é importante não permitir que nada destrua a unidade na qual Deus nos constituiu e para cuja plenitude nos conduz dia a dia”, disse o papa, alternando catalão e espanhol na homilia.
Leão XIV citou dois discursos de seu antecessor, o papa Francisco, que nunca visitou a Espanha, mas frequentemente dizia sentir afeto pelo país.
Por ocasião da inauguração da torre da Virgem Maria na basílica da Sagrada Família, em 8 de dezembro de 2021, Francisco enviou uma mensagem dizendo que a Igreja “é fruto de um ato de amor que a precede e vem de Deus” e que “acima de tudo, ela cresce ao deixar-se amar por Ele, unida, com um coração humilde e agradecido, porque só quem se deixa amar por Deus pode construir, junto com os outros, as obras do amor”.
Um ano depois, o papa argentino disse aos seminaristas da Arquidiocese de Barcelona numa peregrinação a Roma: “Nunca deixem de saborear e lembrar esse amor de predileção que se derrama e se derramará abundantemente em seus corações”.
Leão XIV estruturou sua homilia em torno da imagem da Igreja como Esposa amada e Corpo, com todos os fiéis como membros de um único organismo.
O Espírito, disse ele, “nos impele não só a entregar-nos sem reservas ali onde a Providência nos chama, mas a fazê-lo segundo os desígnios de Deus, na obediência e na confiança”.
Assim como num corpo, disse o papa, “também entre nós há membros mais fortes e outros mais fracos; alguns são visíveis e desempenham funções reconhecíveis externamente; outros estão escondidos e atuam a partir de dentro, em alguns casos sem nunca parar e desempenhando funções vitais, sem que ninguém sequer se aperceba”.
Leão XIV disse que existem muitas imagens possíveis para “ilustrar a variedade e a importância das funções e das missões que encontramos entre nós, mas a mensagem é sempre a mesma”.
“Na riqueza dos dons recebidos, somos fortes porque estamos unidos, e estamos unidos porque somos animados pelo mesmo Espírito, o Espírito de Cristo, que é Espírito de comunhão para a salvação de todos (cf. Ef 4, 4)”, disse ele.
Chegando, Leão XIV foi recebido por Omella. Depois das saudações, o cardeal o conduziu à capela do Santíssimo Sacramento para um breve momento de oração pessoal.
A caminho do altar, o papa passou pela pia batismal, construída em 1433. Foi nesse batistério que os seis primeiros indígenas trazidos das Américas por Cristóvão Colombo receberam o sacramento da entrada na Igreja, como diz uma placa na capela.
Tudo isso faz parte da história da catedral, que herda uma tradição de culto nessa parte de Barcelona que remonta ao século IV d.C.
O último ato de Leão XIV dentro da catedral foi descer à cripta, onde fica o túmulo da mártir romana santa Eulália, co-padroeira de Barcelona.
Antes de seu martírio, dizia-se que a jovem santa cuidava de gansos. Por esse motivo, 13 gansos são mantidos hoje no claustro da catedral em sua homenagem, relembrando tanto seus 13 tormentos quanto a idade em que morreu pelo Senhor.
O papa falou também de “tantos outros mártires” e exortou os fiéis a responderem com “o nosso ‘sim’, dispostos, no que for preciso, a morrer para nós mesmos, a perdermo-nos para nos reencontrarmos, a renunciar ao supérfluo para construir sobre o que é essencial e perdura para sempre (cf. Mt 16, 24-26)”.
“É isso que nos ensina o Crucificado, é a isto que nos convidam o apóstolo Paulo e os exemplos dos santos”, disse Leão XIV.
O papa encerrou sua homilia invocando Nossa Senhora em catalão: “Santa Maria de la Mercè, pregueu per nosaltres” — “Nossa Senhora da Misericórdia, rogai por nós”.





