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A presidência do Regional Sul 1 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou ontem (21) “Reflexões para as Eleições 2026”. O documento tem 20 perguntas e respostas fundamentadas na Sagrada Escritura, no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, no magistério dos papas Francisco e Leão XIV e na mensagem da CNBB para as eleições em 4 de outubro, diz o regional.
Ao longo das 20 perguntas e respostas, o subsídio dá mais destaque ao magistério do papa Francisco do que ao de qualquer outro papa, incluindo Leão XIV.
Francisco é citado nominalmente em duas das 20 perguntas do subsídio. Na pergunta 13, “Por que as notícias falsas prejudicam a boa política?”, com um trecho de sua mensagem para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, em 13 de maio de 2018, que diz: “O melhor antídoto contra as falsidades não são as estratégias, mas as pessoas” que, “livres da ambição, estão prontas a ouvir e, através da fadiga dum diálogo sincero, deixam emergir a verdade”.
E também na pergunta 17: “O que Encíclica Fratelli tutti do papa Francisco ensina sobre política?” Na resposta, o subsídio reproduz o parágrafo 107 da Encíclica que diz: que “todo ser humano tem direito a viver com dignidade e desenvolver-se plenamente” e que “a dignidade humana não depende de condições externas, mas do próprio valor da pessoa”
Leão XIV aparece apenas uma vez, na pergunta 18: “O que a Encíclica Magnifica humanitas do papa Leão XIV ensina sobre política?”, cuja resposta reproduz o parágrafo 134 da encíclica ressaltando que “a busca da verdade é essencial para a democracia”. Segundo o texto, “a democracia não se sustenta apenas em regras, mas em uma relação honesta com a realidade e na orientação ao bem das pessoas”, e adverte que “o afastamento da verdade pode conduzir, progressivamente, a formas de totalitarismo”.
Diferentemente de outros documentos e manifestações da CNBB sobre as eleições, o subsídio não orienta explicitamente os eleitores a não votar em candidatos favoráveis ao aborto. A única referência ao tema aparece na relação de valores de “um projeto político coerente com a Doutrina Social da Igreja”, que cita “a defesa da vida da sua concepção até seu fim natural”, sem desenvolver essa questão ou relacioná-la a critérios específicos para a escolha de candidatos nem usar o termo “aborto” em torno do qual se dá o debate na esfera política.
O texto concentra suas orientações em princípios gerais da Doutrina Social da Igreja. Segundo o subsídio, um projeto político coerente com esses princípios deve promover “a dignidade da pessoa humana; a liberdade religiosa; os direitos humanos; a centralidade da família; a dignidade do trabalho e os direitos dos trabalhadores; a economia a serviço da pessoa; a relação justa entre sociedade civil e Estado; a cooperação internacional; o cuidado com o meio ambiente (ecologia integral); a promoção da paz; o respeito às culturas e a inculturação da fé”.
O subsídio também destaca que um partido político pode ser considerado eticamente coerente quando respeita os seguintes princípios fundamentais, como: o bem comum; a destinação universal dos bens; a subsidiariedade; a participação e o envolvimento real dos cidadãos na vida pública dos cidadãos na vida pública e a solidariedade, com compromisso com a justiça social e a paz.
“A Igreja Católica não apresenta candidatos nem partidos políticos”, ressalta o documento. “Sua missão consiste em formar as consciências à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja, oferecendo princípios e critérios éticos para o discernimento dos fiéis”.
Além das 20 perguntas e respostas, um decálogo com orientações para o discernimento na escolha dos candidatos, e dez orientações que ajudam no discernimento sobre atitudes e escolhas que devem ser evitadas durante o processo eleitoral. Entre as orientações estão rejeitar a corrupção, evitar a polarização política, combater a desinformação, promover o bem comum e rezar antes de votar.
Fundamento da política
Ao responder à pergunta 2: “Qual o fundamento da política?”, o subsídio, baseado no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nº 384 diz que “a pessoa humana é o fundamento e a finalidade da vida política”. O documento também destaca que “a abertura à transcendência e ao outro constitui traço essencial” da pessoa, cuja plena realização acontece “nessa relação com Deus e com os demais” e assim, “dotada de razão, ela é responsável por suas escolhas e capaz de construir projetos que dão sentido à sua existência, tanto no âmbito pessoal quanto social”.
“Em outras palavras, a política existe em função da pessoa humana. Essa pessoa é dotada de razão, liberdade e responsabilidade, mas sua realização não se limita às dimensões material, econômica ou social. Ela possui também uma dimensão espiritual, que a abre à relação com Deus e com o próximo. Assim, quando a Igreja reflete sobre a vida política, considera a pessoa humana em sua integralidade, incluindo sua abertura ao transcendente”, disse o secretário executivo do Regional Sul 1 da CNBB, padre Luis Fernando da Silva à ACI Digital.
Padre Luis Fernando pontuou que “todo o texto das Reflexões para o Ano Eleitoral de 2026” do Regional Sul 1 “está fundamentado no Compêndio da Doutrina Social da Igreja, promulgado pelo então Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, durante o pontificado de são João Paulo II, em 2004” e “como ponto de partida”, este “subsídio assume a compreensão da pessoa humana própria da antropologia cristã”.
“Para a Igreja Católica, o ser humano é, por sua própria natureza, aberto ao transcendente, como afirma o Catecismo da Igreja Católica, no nº 28: “o desejo de Deus está inscrito no coração humano”, por isso, o ser humano é compreendido como um ser religioso, chamado à comunhão com Deus”, ressaltou o sacerdote. “É a partir dessa visão antropológica que a Doutrina Social da Igreja aborda também a dimensão política”.
Segundo o secretário executivo do Regional Sul 1, o “conceito” de transcendência “é fundamental porque o subsídio propõe uma compreensão integral da ação política”.
“Para o cristão, a vivência da cidadania não está separada da experiência da fé. Ao contrário, a adesão a Jesus Cristo ilumina a consciência e orienta o discernimento ético diante das escolhas políticas”, disse o padre. “Por essa razão, o próprio subsídio apresenta a oração como um caminho privilegiado para o discernimento, juntamente com a reflexão, o diálogo e a formação da consciência”.
O sacerdote ressalta, porém, que “isso não significa reduzir a política à religião, nem utilizar a fé como instrumento de imposição sobre a sociedade”, nem contradiz “o princípio constitucional do Estado laico”. Segundo ele, “a laicidade do Estado brasileiro garante a liberdade religiosa e assegura que nenhuma crença seja imposta ou discriminada, permitindo que cidadãos de diferentes convicções participem da vida pública segundo suas consciências”.
Padre Luis Fernando também explica que “a abertura à transcendência recorda que o cidadão cristão participa da vida política como uma pessoa inteira. Ao exercer o direito e o dever do voto, leva consigo não apenas sua razão e sua experiência social, mas também os valores que orientam sua consciência à luz da fé”.
“Isso não significa instrumentalizar a religião em favor de projetos políticos ou candidatos. Significa permitir que a fé ilumine o discernimento moral, ajudando a promover escolhas comprometidas com o bem comum, a dignidade da pessoa humana, a justiça, a solidariedade, os direitos humanos, a democracia e a responsabilidade social”, destacou. “Em uma sociedade democrática, a religião não é adversária da política”, mas “quando respeita a autonomia das realidades temporais e a liberdade de todos, ela contribui para a formação de consciências éticas e para o fortalecimento de uma cultura do diálogo, da participação e da promoção do bem comum, valores essenciais para a vida democrática”.





