Acidigital
dependência de jogos de azar “não se trata de um problema distante ou abstrato; trata-se de uma tragédia concreta, que está destruindo vidas, lares, economias, dignidade e esperanças entre nós e em todo o Brasil”, disse o bispo de Frederico Westphalen (RS), dom Antonio Carlos Rossi Keller, em nota pastoral sobre o tema.
“Nas últimas décadas, e com força crescente nos últimos anos, uma nova praga se espalhou silenciosamente pelas casas, pelas famílias e em muitos outros ambientes de nossa sociedade: a dependência de jogos de azar e a cultura das apostas”, disse dom Antonio Keller. Segundo o bispo, essa realidade, é “hoje facilitada pelas plataformas digitais, pelos aplicativos de celular e pelas chamadas “bets”, que invadiram a vida cotidiana de homens, mulheres, jovens e até adolescentes”.
Destruição financeira, familiar, moral, espiritual e exploração dos vulneráveis
“Diante da gravidade” desse “fenômeno”, dom Antonio Carlos disse que não poderia “como Pastor” de Frederico Westphalen, “permanecer em silêncio” e por isso, nomeou “uma série de males” que “a dependência de jogos-bingo, loterias, caça-níqueis, cassinos físicos ou virtuais, plataformas de apostas esportivas, “bets” e jogos de azar on-line-produz”.
A primeira consequência apontada pelo bispo é a “destruição financeira”, marcada pelo “endividamento crescente” e pela “perda de bens, da terra, da casa, do patrimônio construído em anos de trabalho honrado”. A segunda é a “destruição familiar”, que inclui “brigas, separações, divórcios, violência doméstica, agressões a cônjuges e filhos”, além de filhos que “crescem sem a presença digna do pai ou da mãe”.
A terceira é a “destruição moral”, que se manifesta em “mentira, fraude, manipulação, traição, roubos, apropriação indébita de bens da família, do trabalho, de recursos alheios”. A quarta é a “destruição espiritual”, que pode levar à “alienação, desespero, vergonha, isolamento, suicídio”.
“Numerosos casos de pessoas que, envergonhadas pela dívida e pela mentira, atentam contra a própria vida”, alertou o bispo.
A quinta consequência é a “exploração dos vulneráveis”. Segundo dom Keller, “as grandes plataformas de apostas e jogos se aproveitam da fragilidade humana -especialmente dos jovens, dos pobres, dos desesperançados prometendo “soluções fáceis” para problemas reais e profundos, cobrando promessas, alimentando vícios e lucrando com a desgraça alheia”.
“Isso é, em si mesmo, um pecado social”, ressaltou ele.
Exortação episcopal
Diante da realidade das apostas, dom Antonio Carlos fez uma série de exortações e orientações a quem ainda não caiu no vício, aos dependentes, famílias, jovens, pais, educadores e outros setores da sociedade.
“Aos que ainda não caíram neste vício”, o bispo pediu: “não comecem” a apostar.
“Não há ganho fácil que valha a perda da dignidade, da família e da paz de consciência”, disse. Segundo ele, “o diabo é astuto: oferece pequenas iscas e, depois, exige tudo de quem cede à tentação”.
“Aos que já estão presos ao vício”, dom Keller exortou: “não tenham vergonha de pedir ajuda”.
“Vocês não estão sozinhos. Há saída”, disse o bispo. “Procurem o pároco da sua paróquia, um padre, um conselheiro espiritual ou um profissional de saúde. A comunidade cristã os acolhe. A misericórdia de Deus os espera, sempre. Confessem-se, se preciso for, e recomecem”.
“Às famílias atingidas” pelas apostas, dom Antonio pediu para elas “não” se fecharem “no silêncio”.
“A vergonha paralisa; a palavra liberta. Falem em família e peçam ajuda à Igreja, a um profissional ou a amigos ligados a Movimentos da Igreja. Vocês são amados por Deus, independentemente do que aconteceu”, frisou.
“Aos jovens e adolescentes”, o bispo os exortou a “não” se deixarem “seduzir pela promessa de dinheiro fácil” e destacou que “as redes sociais e os jogos on-line podem se tornar instrumentos de aprisionamento” para eles.
“Não entreguem a sua liberdade, o seu tempo e a sua dignidade em troca de pequenos lucros passageiros. O futuro se constrói com estudo, trabalho honesto, fé e esforço perseverante”, enfatizou.
“Aos pais e educadores: vigiem e eduquem”, impeliu dom Keller. “Não permitam que seus filhos tenham acesso às plataformas de apostas sem acompanhamento. Acompanhem o uso dos telefones e computadores e dialoguem abertamente sobre os perigos do vício. Sejam testemunhas de sobriedade e honestidade”.
“Aos comerciantes, publicitários e influenciadores digitais”, o bispo pediu para que eles “não façam do mal alheio um negócio”.
“Promover apostas entre jovens e pessoas vulneráveis é, perante Deus, cooperação com a destruição da dignidade humana”, destacou ele. “Lembrem-se de que terão de prestar contas diante de Deus por cada pessoa que tiverem ajudado a perder”.
“Aos poderes públicos”, dom Antonio recomendou que “regulem e fiscalizem com rigor a indústria das apostas e dos jogos, especialmente os on-line, em defesa dos mais vulneráveis”.
“A liberdade econômica não pode prevalecer sobre a dignidade da pessoa humana”, frisou.
As “paróquias e capelas” de Frederico Westphalen, dom Keller exortou: “Acolham, escutem e acompanhem. A dependência de jogos, como qualquer outra dependência, também é um problema pastoral e exige uma resposta pastoral: grupos de apoio, momentos específicos de oração, formação dos agentes e acompanhamento espiritual e humano das famílias atingidas”.
“Que Nossa Senhora da Luz, celebrada nesta semana, a Mãe que nos ensina a olhar para Cristo, e não para o brilho ilusório do dinheiro, rogue por todos os que estão presos a este vicio, pelas suas famílias, e pelos que lucram com a sua fragilidade. Que são José, patrono da Igreja universal, e os beatos Manuel e Adílio, mártires e padroeiros diocesanos, intercedam pelos pais de família, pelos jovens, pelos trabalhadores, por todos os que são tentados a entregar a sua vida nas mãos da sorte, em vez de colocá-la nas mãos de Deus”, pediu dom Antonio Carlos Keller. “Que o Espirito Santo conceda a todos nós a sabedoria, a fortaleza e a sobriedade para vencer esta praga, testemunhando que “o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males” (1 Tm 6, 10) e que a felicidade verdadeira só se encontra em Cristo Jesus, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (C12, 3)”.





